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Design e gestão técnica: pauloquerido.com, Lda
Autoria do quadro reproduzido: Joe Dunne

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Os 15 Microcontos

Os quinze microcontos seleccionados confirmam, além do mais, a natureza híbrida desta proposta que irá muito provavelmente dominar o presente milénio. E muito mais diria, não fosse eu próprio um grande adepto da brevidade.

Leiam e comentem.


Reencarnação
Francisco Pascoal Pinto

Como reza a tradição tibetana os monges puseram diversos objetos em frente ao último rebento do clã Ba e rezaram fervorosamente para que ele reconhecesse quais haviam pertencido ao falecido Tozan Goduzin. Só assim teriam certeza plena de que o menino era de fato a septuagésima reencarnação daquele venerável e sábio Lama. Para desencanto geral, o pequeno, que era a octogésima encarnação do ator transformista Chiang Mei da ópera de Beijin, escolheu uma bonequinha chinesa de porcelana da dinastia Ming.

O Paninho Bordado
Wei

A mulher aproximou-se e depositou em cima da mesa o paninho bordado:
- Para o concurso.
Seguiu-se um momento de incompreensão, após um dos membros do júri esclareceu:
- O concurso de bordados é na porta ao lado. Aqui é o de histórias.
- Sim. É uma história.
Nova incompreensão.
- É a história de um pássaro a comer uma cereja.
- Já lhe dissemos...
- O meu filho disse que estava conforme as regras.
- É um concurso de palavras, o que a senhora tem aí são imagens.
- Não sei escrever. Mas se vir bem, cada imagem é uma palavra. Está a ver? Cereja, pássaro, rio, vento... É uma história muito curtinha. O pássaro a comer a cereja.
- Queremos palavras escritas.
Devolveram-lhe o paninho de um modo tão descuidado que o segurança, que seguia a conversa com mal disfarçado interesse, estendeu os braços num gesto involuntário. Não sabia dizer o que desejava proteger; se o pássaro, se o conto, se a mulher.
Ela guardou o bordado cuidadosamente e dirigiu-se para a porta. O segurança correu a abri-la. Corou, quando arranjou coragem para lhe dizer:
- História bonita, a sua.

A Morte em Veneza

Puxou o manto para não molhar, pôs a ampulheta de lado e descansou a foice na lateral da gôndola. Estava de férias.

(Sem título)

As formigas, em longa fila indiana, indo de um quintal ao outro, eram a única coisa que unia aqueles dois vizinhos.

Um conto concreto

Um conto concreto, sem personagens nem história, sem diálogo, descrição ou narração, um conto que aspire a não ser mais que um conjunto de palavras dispostas em fila, separadas por vírgulas e quem sabe pontos, ponto e vírgula, dois pontos: um conto que ousasse deixar secreta a história que conta, isto é: um conto que permitisse deixar apenas um pouco à mostra a vida que habitasse por detrás, imaginemos por exemplo um homem que escreve no escuro e se esquece de contar as palavras do conto que decidiu escrever, se esquece de convocar para o seu conto as personagens e os seus pensamentos, as suas acções. Um conto que definisse o homem que escreve como uma espécie de pausa no tempo, como um intervalo no avanço da vida, como se esse homem escrevendo fixasse o que escreve escondendo o que o move a escrever. Um conto parado no tempo, imóvel e libertando-se do vento que o prende à terra. Um conto que respirasse como uma criança nascendo.

A consciência
João Ventura

Foi durante o período antes da ordem do dia que o deputado deu por falta da sua consciência. Procurou nos bolsos, na pasta, mas não a encontrou. Ficou preocupado.
Na primeira oportunidade, saiu do hemiciclo e foi à secção de perdidos e achados. Perguntou ao funcionário se alguém teria encontrado uma consciência. Fizeram-no entrar pela porta ao lado do guichet e levaram-no a um compartimento onde havia guarda-chuvas, telemóveis, muitos dossiers, muitos envelopes A4 de papel castanho, e numa prateleira ao fundo algumas consciências.
- Essas estão aí porque os donos nunca vieram procurá-las.
O deputado observou mas nenhuma era a sua. Notou no chão uma caixa fechada.
Perante o seu olhar interrogativo, o funcionário disse:
- Aí dentro estão vergonhas. Há pessoas que perdem a vergonha. E nunca vêm cá à procura dela. Vergonhas e consciências que não são reclamadas, ao fim de um ano são incineradas.
O deputado apalpou o bolso e suspirou aliviado. Ainda tinha a sua vergonha. O problema era a consciência.
Agradeceu ao funcionário e saiu à procura, pensando onde diabo poderia ter deixado a consciência.

Correu a janela
Sónia Silva

Correu a janela e fechou as vozes de outras vidas. Não queria saber. Já nada lhe dizia. As vidas, as simpatias, as compreensões. Eternas compreensões levadas a nenhures.
Vivia no etéreo. E no etéreo não se encontram as vozes de outras vidas. Mas vêm-se e ouvem-se os signos do novo mundo, hipocritamente fechados num plano aberto ao todo. Sem afã. Apenas as vidas etéreas se escutam. Queria encerrar à força o longo capítulo do qual era prisioneira. Mas só o sossego do éter permite a libertação. Caminho para a concentração.
Os outros. Nunca lhes encontrava os limites. Trespassava-os até à essência que lhes era vendada. Os outros. Baralhava-os. Confundia-os. Na realidade, não os conhecia no seu plano. Apenas alguns. E pouco. Os outros. Na essência. Toda ela era a mesma. A de todos.
Um dia, correu a janela, fechou as outras vozes e permaneceu sozinha na fronteira.

Mãe
Cláudio Parreira

A minha mãe vem da morte pra me visitar.
Diz que estou magro
que só engordo palavras
solitário demais neste mundo que se faz a dois
que sabe dos meus cigarros
e que lamenta as minhas garrafas.
Essa aí a minha mãe, que ocupa a sua morte com a minha vida.

Saudade

Era uma vez um gato que tinha um homem guardado dentro de uma caixa de sapatos. Quando o gato partia à aventura pelos telhados, o homem vingava a sua ansiedade em alpista e frutos secos. Um dia, o gato deixou a caixa aberta e o homem fugiu para sempre. Escravo da sua independência, o pobre humano lembrava-se todas as noites do sabor das cascas de pinhão, do som da pele a roçar no cartão prensado, dos pêlos do gato. É isto a saudade.

Ave, Maria
Marcel Novaes

A noite estava tranquila no 4o DP, e a surpresa do policial de plantão foi grande quando a freira entrou, de cabeça baixa (a última vez que ele vira uma freira no DP fora quinze anos antes, numa festa, mas essa é uma outra história). Ele pigarreou meio de lado e esboçou um sorriso para perguntar o que ela desejava, mas não chegou a abrir a boca. A bala entrou pela testa, deixando um círculo perfeito.

O aterro

No meu tempo o mar vinha até aqui. E ali pra cima era tudo mato. A cidade era outra. Depois que aterraram pra fazer a avenida, construíram um paredão de prédios e pelaram os morros, começou a vir gente de fora. Hoje a gente sai na rua e não encontra ninguém. Os sobrenomes são esquisitos. Mesmo quando se parecem, não têm nada a ver com os dos velhos conhecidos. Os amigos só se encontram nos velórios, ainda assim quando alguém lembra de avisar. E ninguém mais passa a noite, ninguém traz lanche ou café, ninguém sabe contar piada, ninguém mais vela seus mortos direito. Os filhos e netos namoram e casam com gente que é filho e neto de desconhecidos. E ficam chateados quando alguém pergunta quem é teu pai, quem é tua mãe. Nasceram das ervas, por acaso? E quando dizem, nem adianta: ninguém conhece. Acho que quando aterraram o mar acabaram enterrando no lodo, no fundo do aterro, a alma da cidade.

Já são horas?
Fernando Dinis

Passam dois comboios na estação de Carcavelos, no sentido do Cais de Sodré, com quatro minutos de diferença entre si. O primeiro passa a toda a velocidade sem parar. É um semi-rápido que vem de Cascais. O segundo chega pontualmente e pára. É este segundo comboio que Mozuln Morembai apanha todos os dias, em direcção ao seu emprego. Com a qualidade manienta de também ser pontual, são grandes as vezes que Mozul Morembai já se encontra na plataforma de acesso quando ainda passa o primeiro comboio. Normalmente, devido à velocidade da sua passagem, sente os escassos cabelos desalinharem-se na testa, e um arrepio trepando pela sua espinha, quando nos dias mais frios, vem arrastado um vento cortante. Mozul Morembai esgotou as forças numa destas manhãs e decidiu apanhar um comboio quatro minutos mais cedo. Aquele que não pára na estação. Muito se disse sobre o voo do seu corpo.

Mais ainda se falou sobre a pontualidade da sua morte.

O palhaço
Adriane Canan

Quando o palhaço morreu, já era tarde. Não havia mais como cancelar o espetáculo.

Primeira infância

-- Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim...
Ele falava sério, mas frase tão famosa soou ritmada. A menina era gordinha, nada grave, apenas com uma borda recheada. Ela esfregava suas mãos de aparência enrugada. Parecia que havia lavado louça durante o dia que passou. Suava, não pelo momento, mas por um problema em suas glândulas. Ele tinha apenas 12 anos, mas era como se fosse um rapaz sábio e inalcançável ao lado de seus 9 anos. A menina sabia que toda aquela atenção aos tatu-bolas não era desproposital.
O rapazinho pegou na mão onde o suor entrava em mini canaletas:
-- Um dia conto todas as sardas que você tem no nariz.
E que nariz arrebitado que ela tinha. Condizia com sua interminável inquietação com tudo que a cercava.
Recolheram juntos os tatu-bolas no cativeiro preparado com terra, água e folhas. Não largaram as mãos em momento algum. Levaram o cativeiro em forma de pote de margarina a uma sombra. Lá ela sentou-se em cima do vestido com fitas e o rapazinho retirou seu boné para preparar-se para o beijo. Foi como se milhares de tatu-bolas entrassem na boca da menina.

The end

Escreveu um bilhete de suicídio tão bom, mas tão bom, que teve que se matar.

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Microcontos

resultado do concurso

O júri, constituido por José Mário Silva, José Carlos Barros, Dennis D. e Silvia Chueire, depois de uma primeira escolha de 76 contos, seleccionou 15, os quais serão oportunamente publicados recebendo cada um dos autores um exemplar do livro.

A primeira escolha (76)
5 - A consciência 8 - Assassina… 13 – Correu a janela 18- Quiromancia 19 – Reencarnação 20 – Contra-deduções 24 – A fuga chega de madrugada 25 – Mãe 26 – Imaginação 33 – Recomeço 36 – Foto 25 – Mãe 38 - Encontro no Posto Médico 41 - Muita Calma nesta hora 45 – 19 de Março 47 – O Inaudito acontecimento 48 – Saudade 56 – Quase um conto 57 - O Silêncio 60 - Receita para aproveitar uma certa luz 63 – Onde não há gente 70 - Era bonitinho aquele menino 72 – S/título 77 - O Campo de Força 78 – Ave, Maria 80 – O telemóvel 86 – O aterro 87 - O paninho bordado 102 – O machado do Ernesto 103 – O mecanismo 105 – (s/título) 108 – Os monstros de Tiago... 111 – Colcha de retalhos 115 - A BUSCA 119 - Morangos e menta 132 – Feliz 133 – Liquidando o casamento 141 - UM DIA COMO NENHUM OUTRO 143 -monstro 146 - (Um dia, sem sabermos bem porquê, fartou-se.) 152 – Metamorfoses 153 – A morte em Veneza 181 – O cão e a morte 186 – Já são horas? 189 - A Razão do Coelhinho de Páscoa 190 - Último desejo 197 – S/título 198 – S/título
211 – Um conto concreto 230 – s/título 234 – O palhaço 235 – Conselho 236 – Hora certa 238 – Primeira infância 247 – O monstro marinho 246 – O amigo 249 - ASSIM SÃO AS COISAS 250 – The end 251 – Fulminante silêncio... 267 – Confessionário 268 – Tempos modernos 273 - A TEORIA 288 - O Cliente 290 – Coca cola 297 - A velha história de Chapeuzinho Vermelho 299 - Quando você se casa 308 - DIVERSÃO SUMÁRIA EM TEMPOS DE PRESSA E TÉDIO 309 - LEDA E O PATO 315 – COMPENSAÇÃO 333 – S/título 346 - Caio e Fim #5 355 – Pipoca 374 – Um momento 398 – E-mail
406 - UMA VIDA EM POST-ITS NO FRIGORÍFICO 418 - vibra call 427 - Desconforto

Os seleccionados (15)
5;13;19;25;48;78;86;87
153;186;197
211;234;238;250

procurem os microcontos na coluna da direita, isto enquanto não os destacarmos de outra forma.

PS - Neste momento estamos a ponderar a publicação não só dos 15 seleccionados mas de todos os escolhidos.

401 a 430!

leia "401 a 430!"

351 a 400

leia "351 a 400"

301 a 350

leia "301 a 350"

251 a 300

leia "251 a 300"

201 a 250

leia "201 a 250"

151 a 200

leia "151 a 200"

101 a 150

leia "101 a 150"

51 a 100

leia "51 a 100"

1 a 50

leia "1 a 50"

Apresentação em Faro do Mil e Uma Pequenas Histórias

Uma das características mais importantes do conto brevíssimo é, sem dúvida, a existência de diversas formas de hibridação genérica, cruzando-se e quase se confundindo com outros géneros literários e não literários, a ponto de às vezes ser legítimo o leitor interrogar-se: Mas isto é um conto?

Ao longo da escrita das pequenas histórias usei e reinventei vários desses formatos, como por exemplo a fábula, o aforismo, a história de proveito e exemplo, a notícia breve, a lista de compras, o elogio fúnebre e, finalmente, o poema.

Se me quiser ouvir falar um pouco sobre o conto brevíssimo e as suas características, assim como ouvir alguns contos brevíssimos, lidos por Mauro Amaral e Tixa, apareça no próximo dia 26, pelas 21:30, nos Artistas, em Faro, onde se fará a apresentação do livro Mil e uma Pequenas histórias, volume I.

Luís Ene

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As Ruínas Circulares

O terceiro livro da colecção leituras com net é, também ele, tirado dos blogues -- esse gigantesco repositório de talentos vários. É a vez de As Ruínas Circulares, de João Pedro da Costa, terem uma edição nobre em papel. Nobre e luxuosa: todo o interior do livro é a cores, para salvaguardar a criatividade gráfica do autor, mestre do post certeiro sobre o dia-a-dia de quem trabalha, convive e se diverte frente a um ecran de computador.Para melhor apresentar a obra decidimos incluir o

Prefácio

Estávamos a 25 de Agosto de 2004 quando recebi um e-mail para criar o blogue As Ruínas Circulares. O autor era, como tantos, um absoluto desconhecido para mim. Dei uma pequena ajuda no design do blogue, rectificando tecnicamente a imagem do logotipo. Pensei com os meus botões que tinha mais um blogue de autor, umbiguista como tantos. Estava longe de imaginar que o João Pedro da Costa se viria a revelar um dos mais talentosos bloggers que já conheci, e estou a falar de toda a blogosfera, que não apenas da escrita em Português.

Porém, não foi preciso esperar muito tempo para tropeçar, boquiaberto, no talento único do JP da C. No que reparei primeiro foi, obviamente, na série dos coelhos suicidas. Inspirado na obra de Andy Riley, JP da C levou muito longe a saga do coelho obcecado pelo suicídio, que inventa as situações mais incríveis para se imolar. Graças a essa homenagem do JP da C, pude conhecer Riley e comprei o seu livro na primeira oportunidade.

leia "As Ruínas Circulares"

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ensaios

blogues & livros

Também é daqueles que se queixa da passagem de blogues a livros?
Leia um micro ensaio sobre livros que passaram a blogues, os nossos! Conheça a opinião do Luís Ene e dê a sua.


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