Os 15 Microcontos
Os quinze microcontos seleccionados confirmam, além do mais, a natureza híbrida desta proposta que irá muito provavelmente dominar o presente milénio. E muito mais diria, não fosse eu próprio um grande adepto da brevidade.
Leiam e comentem.
Reencarnação
Francisco Pascoal Pinto
Como reza a tradição tibetana os monges puseram diversos objetos em frente ao último rebento do clã Ba e rezaram fervorosamente para que ele reconhecesse quais haviam pertencido ao falecido Tozan Goduzin. Só assim teriam certeza plena de que o menino era de fato a septuagésima reencarnação daquele venerável e sábio Lama. Para desencanto geral, o pequeno, que era a octogésima encarnação do ator transformista Chiang Mei da ópera de Beijin, escolheu uma bonequinha chinesa de porcelana da dinastia Ming.
O Paninho Bordado
Wei
A mulher aproximou-se e depositou em cima da mesa o paninho bordado:
- Para o concurso.
Seguiu-se um momento de incompreensão, após um dos membros do júri esclareceu:
- O concurso de bordados é na porta ao lado. Aqui é o de histórias.
- Sim. É uma história.
Nova incompreensão.
- É a história de um pássaro a comer uma cereja.
- Já lhe dissemos...
- O meu filho disse que estava conforme as regras.
- É um concurso de palavras, o que a senhora tem aí são imagens.
- Não sei escrever. Mas se vir bem, cada imagem é uma palavra. Está a ver? Cereja, pássaro, rio, vento... É uma história muito curtinha. O pássaro a comer a cereja.
- Queremos palavras escritas.
Devolveram-lhe o paninho de um modo tão descuidado que o segurança, que seguia a conversa com mal disfarçado interesse, estendeu os braços num gesto involuntário. Não sabia dizer o que desejava proteger; se o pássaro, se o conto, se a mulher.
Ela guardou o bordado cuidadosamente e dirigiu-se para a porta. O segurança correu a abri-la. Corou, quando arranjou coragem para lhe dizer:
- História bonita, a sua.
A Morte em Veneza
Puxou o manto para não molhar, pôs a ampulheta de lado e descansou a foice na lateral da gôndola. Estava de férias.
(Sem título)
As formigas, em longa fila indiana, indo de um quintal ao outro, eram a única coisa que unia aqueles dois vizinhos.
Um conto concreto
Um conto concreto, sem personagens nem história, sem diálogo, descrição ou narração, um conto que aspire a não ser mais que um conjunto de palavras dispostas em fila, separadas por vírgulas e quem sabe pontos, ponto e vírgula, dois pontos: um conto que ousasse deixar secreta a história que conta, isto é: um conto que permitisse deixar apenas um pouco à mostra a vida que habitasse por detrás, imaginemos por exemplo um homem que escreve no escuro e se esquece de contar as palavras do conto que decidiu escrever, se esquece de convocar para o seu conto as personagens e os seus pensamentos, as suas acções. Um conto que definisse o homem que escreve como uma espécie de pausa no tempo, como um intervalo no avanço da vida, como se esse homem escrevendo fixasse o que escreve escondendo o que o move a escrever. Um conto parado no tempo, imóvel e libertando-se do vento que o prende à terra. Um conto que respirasse como uma criança nascendo.
A consciência
João Ventura
Foi durante o período antes da ordem do dia que o deputado deu por falta da sua consciência. Procurou nos bolsos, na pasta, mas não a encontrou. Ficou preocupado.
Na primeira oportunidade, saiu do hemiciclo e foi à secção de perdidos e achados. Perguntou ao funcionário se alguém teria encontrado uma consciência. Fizeram-no entrar pela porta ao lado do guichet e levaram-no a um compartimento onde havia guarda-chuvas, telemóveis, muitos dossiers, muitos envelopes A4 de papel castanho, e numa prateleira ao fundo algumas consciências.
- Essas estão aí porque os donos nunca vieram procurá-las.
O deputado observou mas nenhuma era a sua. Notou no chão uma caixa fechada.
Perante o seu olhar interrogativo, o funcionário disse:
- Aí dentro estão vergonhas. Há pessoas que perdem a vergonha. E nunca vêm cá à procura dela. Vergonhas e consciências que não são reclamadas, ao fim de um ano são incineradas.
O deputado apalpou o bolso e suspirou aliviado. Ainda tinha a sua vergonha. O problema era a consciência.
Agradeceu ao funcionário e saiu à procura, pensando onde diabo poderia ter deixado a consciência.
Correu a janela
Sónia Silva
Correu a janela e fechou as vozes de outras vidas. Não queria saber. Já nada lhe dizia. As vidas, as simpatias, as compreensões. Eternas compreensões levadas a nenhures.
Vivia no etéreo. E no etéreo não se encontram as vozes de outras vidas. Mas vêm-se e ouvem-se os signos do novo mundo, hipocritamente fechados num plano aberto ao todo. Sem afã. Apenas as vidas etéreas se escutam. Queria encerrar à força o longo capítulo do qual era prisioneira. Mas só o sossego do éter permite a libertação. Caminho para a concentração.
Os outros. Nunca lhes encontrava os limites. Trespassava-os até à essência que lhes era vendada. Os outros. Baralhava-os. Confundia-os. Na realidade, não os conhecia no seu plano. Apenas alguns. E pouco. Os outros. Na essência. Toda ela era a mesma. A de todos.
Um dia, correu a janela, fechou as outras vozes e permaneceu sozinha na fronteira.
Mãe
Cláudio Parreira
A minha mãe vem da morte pra me visitar.
Diz que estou magro
que só engordo palavras
solitário demais neste mundo que se faz a dois
que sabe dos meus cigarros
e que lamenta as minhas garrafas.
Essa aí a minha mãe, que ocupa a sua morte com a minha vida.
Saudade
Era uma vez um gato que tinha um homem guardado dentro de uma caixa de sapatos. Quando o gato partia à aventura pelos telhados, o homem vingava a sua ansiedade em alpista e frutos secos. Um dia, o gato deixou a caixa aberta e o homem fugiu para sempre. Escravo da sua independência, o pobre humano lembrava-se todas as noites do sabor das cascas de pinhão, do som da pele a roçar no cartão prensado, dos pêlos do gato. É isto a saudade.
Ave, Maria
Marcel Novaes
A noite estava tranquila no 4o DP, e a surpresa do policial de plantão foi grande quando a freira entrou, de cabeça baixa (a última vez que ele vira uma freira no DP fora quinze anos antes, numa festa, mas essa é uma outra história). Ele pigarreou meio de lado e esboçou um sorriso para perguntar o que ela desejava, mas não chegou a abrir a boca. A bala entrou pela testa, deixando um círculo perfeito.
O aterro
No meu tempo o mar vinha até aqui. E ali pra cima era tudo mato. A cidade era outra. Depois que aterraram pra fazer a avenida, construíram um paredão de prédios e pelaram os morros, começou a vir gente de fora. Hoje a gente sai na rua e não encontra ninguém. Os sobrenomes são esquisitos. Mesmo quando se parecem, não têm nada a ver com os dos velhos conhecidos. Os amigos só se encontram nos velórios, ainda assim quando alguém lembra de avisar. E ninguém mais passa a noite, ninguém traz lanche ou café, ninguém sabe contar piada, ninguém mais vela seus mortos direito. Os filhos e netos namoram e casam com gente que é filho e neto de desconhecidos. E ficam chateados quando alguém pergunta quem é teu pai, quem é tua mãe. Nasceram das ervas, por acaso? E quando dizem, nem adianta: ninguém conhece. Acho que quando aterraram o mar acabaram enterrando no lodo, no fundo do aterro, a alma da cidade.
Já são horas?
Fernando Dinis
Passam dois comboios na estação de Carcavelos, no sentido do Cais de Sodré, com quatro minutos de diferença entre si. O primeiro passa a toda a velocidade sem parar. É um semi-rápido que vem de Cascais. O segundo chega pontualmente e pára. É este segundo comboio que Mozuln Morembai apanha todos os dias, em direcção ao seu emprego. Com a qualidade manienta de também ser pontual, são grandes as vezes que Mozul Morembai já se encontra na plataforma de acesso quando ainda passa o primeiro comboio. Normalmente, devido à velocidade da sua passagem, sente os escassos cabelos desalinharem-se na testa, e um arrepio trepando pela sua espinha, quando nos dias mais frios, vem arrastado um vento cortante. Mozul Morembai esgotou as forças numa destas manhãs e decidiu apanhar um comboio quatro minutos mais cedo. Aquele que não pára na estação. Muito se disse sobre o voo do seu corpo.
Mais ainda se falou sobre a pontualidade da sua morte.
O palhaço
Adriane Canan
Quando o palhaço morreu, já era tarde. Não havia mais como cancelar o espetáculo.
Primeira infância
-- Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim...
Ele falava sério, mas frase tão famosa soou ritmada. A menina era gordinha, nada grave, apenas com uma borda recheada. Ela esfregava suas mãos de aparência enrugada. Parecia que havia lavado louça durante o dia que passou. Suava, não pelo momento, mas por um problema em suas glândulas. Ele tinha apenas 12 anos, mas era como se fosse um rapaz sábio e inalcançável ao lado de seus 9 anos. A menina sabia que toda aquela atenção aos tatu-bolas não era desproposital.
O rapazinho pegou na mão onde o suor entrava em mini canaletas:
-- Um dia conto todas as sardas que você tem no nariz.
E que nariz arrebitado que ela tinha. Condizia com sua interminável inquietação com tudo que a cercava.
Recolheram juntos os tatu-bolas no cativeiro preparado com terra, água e folhas. Não largaram as mãos em momento algum. Levaram o cativeiro em forma de pote de margarina a uma sombra. Lá ela sentou-se em cima do vestido com fitas e o rapazinho retirou seu boné para preparar-se para o beijo. Foi como se milhares de tatu-bolas entrassem na boca da menina.
The end
Escreveu um bilhete de suicídio tão bom, mas tão bom, que teve que se matar.
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